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the Degree Confluence Project
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Brazil : Paraná

15.4 km (9.6 miles) SSE of Rondinha, Paraná, Brazil
Approx. altitude: 765 m (2509 ft)
([?] maps: Google MapQuest Multimap world confnav)
Antipode: 26°N 128°E

Accuracy: 1 m (3 ft)
Click on any of the images for the full-sized picture.

#2: Para o norte #3: Para o leste #4: Para o oeste #5: Para o sul #6: A prova #7: O time #8: O time 2 #9: Espanta crianças #10: O Rio Iguaçu #11: A cachoeira do Santuário #12: Vista ao Iguaçu

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  26°S 52°W  

#1: A confluência

(visited by candido doring, juscelino castro and chico seibel)

English

18-Nov-2006 -- Relato da caçada à confluência 26S/52W em 18 de novembro de 2006;

Tomei conhecimento do “Degree Confluence Project” por acaso, explorando o site Google. Já satisfeito com a eficiência do mecanismo de busca, e encantado com o programa Google Earth, fiquei orgulhoso ao verificar que a tecnologia dos satélites associada a da internet estavam unindo povos em um projeto comum de detalhamento geográfico, através de fotografias de todos os pontos de confluência das latitudes com as longitudes do globo terrestre.

Unindo espírito de aventura, interesse na divulgação de seus municípios, procura por conhecimentos novos e dissociação de interesses políticos ou comerciais, o projeto tem tudo para continuar sendo um sucesso.

Verificando os pontos de meu estado, Paraná, constatei que apenas um dos vinte pontos de confluência não havia sido visitado. Região do estado eminentemente agrícola, com grandes áreas de plantação de soja, milho, e outros produtos rasteiros, um dos maiores produtores mundiais de grãos, a possibilidade de a confluência estar em um lugar de fácil acesso era grande. Como de fato a maioria dos pontos já alcançados era. Mas este ainda não o foi.

A curiosidade começou.
“Viajando” na região pelo Google Earth, verifiquei que a confluência estava localizada em um município chamado Reservado Iguaçu, onde foi construída a usina hidroelétrica Governador Ney Amintas de Barros Braga, uma das várias do estado. Região também conhecida por “Alagados do Iguaçu” por ter sofrido os alagamentos infelizmente necessários para as obras, atingindo este município e o de Mangueirinha. Mas a confluência estava em terra, a mais ou menos 1200 metros da margem direita do Rio Iguaçu, onde não é caudaloso embora de profundidade razoável, e seguramente se pratica pesca em embarcações pequenas sem grandes riscos.

Por uma infeliz coincidência, a imagem do satélite estava prejudicada por uma nuvem espessa sobre a região, e a nitidez máxima era alcançada em torno de nove km, dificultando a identificação do solo e das possíveis estradas de acesso desde Reserva do Iguaçu, vila mais próxima, à confluência. Na margem oposta, a imagem não era obstruída pela nuvem, mas a má nitidez era semelhante. Aproximadamente doze km a partir da confluência, em direção à Mangueirinha, a imagem era impecável, demonstrando predominar grandes áreas de plantações e estradas próximas à margem esquerda do Rio Iguaçu. Tudo levava a crer que a confluência estava em semelhantes condições.

A curiosidade aumentou.
Observando os relatos de caçadas de várias confluências, comecei a perceber um maravilhoso exemplo de processos comuns e necessários para o sucesso na vida de qualquer pessoa. Um objetivo claro e definido a ser alcançado; planejamento; estudo de vários temas necessários relacionados; capacitação técnica; levantamento minucioso do campo de batalha e resultado final, o objetivo. Com dois filhos, Gabriel, seis anos e Lara, oito anos, e minha esposa, Jocemara (Jô), todos já habituados a desafios de descobertas de trilhas, acampamentos em locais inóspitos, admiração da fauna e flora, a participação neste projeto seria também um reforço de formação de responsabilidade com o meio ambiente, de aprofundar o conhecimento da biodiversidade regional e de sua importância, de integração global, exemplar.

A curiosidade associou-se à vontade de participar do projeto.
A proximidade de um feriado prolongado em outubro fez com que a opção de laser fosse direcionada a matar esta curiosidade crescente. Apresentei à minha família o projeto, e imediatamente transformou-se em uma promessa a ser cumprida. Decidimos então passar o feriado na cidade de Guarapuava, no Hotel e Spa Medvale que já conhecíamos, distante a aproximadamente noventa km da confluência em linha reta. Saímos de Curitiba dia 12 de outubro de 2006, e no dia seguinte fomos para a primeira análise do local. Após comermos pó por mais de três horas em estradas precárias, sem GPS e apenas com mapas precários, tentamos nos aproximar pela margem oposta, de melhores condições de estradas. O desconforto normal que crianças pequenas sentem quando permanecem muito tempo dentro de um carro nos fez desistir e aproveitar o resto do dia tomando banho de rio, olhando a margem direita do Iguaçu e planejando outra inspeção munidos de um GPS e colaboração de alguém da região. Já comecei a perceber que não era tão simples chegar ao objetivo.

Retornando à Curitiba, comentei com vários amigos sobre o projeto, imaginando aumentar a equipe e dividir o prazer que eu estava sentindo com este desafio que crescia. Cada um que se interessava, e foram vários, tinha dificuldades nesta época do ano. Resolvi fazer mais uma viagem de análise só com minha família. Mais horas de estudo da região pelo Google Earth, compras de outros mapas, um GPS e uma nova máquina fotográfica digital. Horas imaginando trajetos, equipamentos, contatos. Cheguei à conclusão que seria fundamental descobrir o proprietário da área, entrar em contato e pedir informações e autorização. Sem sucesso. Teria que ir a um cartório do município de Reserva do Iguaçu. Então vamos.

Município criado em 1997, com apenas 6600 habitantes e metade morando na área rural, 800 km² de extensão e distante 10 km da Usina Gov. Ney Braga, resolvi procurar ajuda para obter informações sobre acomodações. Meu vizinho e amigo Sérgio Kraemer, engenheiro da Copel em Curitiba, prontamente se encarregou de providenciar reserva no único hotel da região, administrado pela própria usina e dentro da área da Vila dos Funcionários da empresa. Lá fomos nós dia 17 de novembro de 2006, uma sexta feira.

Chegamos perto do meio dia. O Hotel Segredo nos pareceu de uma simpatia familiar, com atendimento pelos funcionários de quem sempre recebem amigos, já que o Hotel tem sua lotação preferencial pelos próprios funcionários desta gigante Copel. Após um bom banho e almoçarmos no próprio hotel, fui até a cidade à procura do cartório, distante apenas 8 km da Vila Copel. Achei o cartório sem dificuldades, em uma das poucas ruas da pequena e simpática cidade, e ainda auxiliado por um garoto de uns 8 anos que me pediu carona e que esporadicamente faz serviços de jardinagem nas casas dos funcionários da Vila Copel.

Atendido pelo próprio cartorário e munido de mapas e dezenas de impressões de vistas aéreas obtidas no Google Earth, tentei em vão obter as informações necessárias. Desconfortável por não conseguir ajudar, chamou um amigo que estava nos fundos “batendo papo” como em toda boa cidade do interior.

Juscelino de Castro, 50 anos, funcionário da Copel como muitos da região, função na empresa “Responsabilidade Social” como expresso em seu cartão de visitas. Professor de português nas escolas municipais, descendente de escravos como gosta de ressaltar e que a negra cor forte da pele e o físico privilegiado não desmentem. Não só encantou-se com o projeto como resolveu participar, prestando as informações e quase exigindo que fossemos à caçada imediatamente. Confirmou alguns detalhes do trajeto mais provável com outros “conhecedores” da região e lá fomos nós. Ele de crachá, uniforme laboral e tênis, e eu de bermudas e sandália havaiana.

Eram quase três horas da tarde do dia 17 de novembro, e depois de dirigir quase trezentos e cinqüenta km desde Curitiba, confesso que não estava muito animado. Mas impossível resistir à animação do Aparecido, oops, Juscelino (após várias vezes ter trocado seu nome por Aparecido às custas do convívio com outro amigo que tem este nome, ouvi uma preleção sobre o acerto de seus pais na escolha do nome Juscelino. Errei só mais algumas vezes...). Fomos em frente. Estrada de terra, irregular, esburacada, um pó infernal, cortando plantações de soja e milho já colhidas, desvios sem absolutamente nenhuma placa indicativa auxiliar, a experiência do Juscelino e a seta do GPS (que o encantou), inúmeras “porteiras” fechadas e incansavelmente abertas, chegamos a uma propriedade com a primeira placa indicativa proibindo a passagem. Estávamos a 1600 metros da confluência. Há uns 50 metros, uma casa simples, galinheiro, cachorro que latia deitado sem muita convicção, e nenhuma resposta a nossas insistentes “palmas”. Decidimos invadir e prosseguir.

A valente Mitsubishi L200 que se comportou com galhardia até então começou a hesitar quando a estrada precária foi se transformando em uma trilha. Estreitando e sendo invadida por taquara seca, riscando a pintura, obrigou-nos a acionar a tração baixa para vencer o solo escorregadio e traiçoeiro. À direita da trilha, ascendente naquele trecho, aumentava o risco de uma derrapagem nos levar “ladeira abaixo”. Finalmente um córrego cortando a trilha nos convenceu a parar e prosseguir a pé. Estávamos a 800 metros da confluência. E tão animados que uma cobra coral que apareceu repentinamente na trilha foi recebida com festa e fotografada várias vezes. Sei lá se é verdadeira, por precaução todas devem ser consideradas como tal, mas tomara que seja para ficar mais emocionante. E o Juscelino queria puxá-la pelo rabo para fotografar melhor. Quase deu briga. Quem ouviu uma preleção agora foi ele.

Sandália de dedo e bermudas, a esperança de alcançar a confluência naquele dia foi se esvaindo. Andamos mais uns 600 metros, quando o GPS indicava estarmos nos afastando outra vez. Elevação de 870 metros, 200 metros do ponto, seta à direita. Mata fechada em declive à direita, era para lá. Consegui entrar uns 20 metros no máximo, quando fui obrigado a ficar parado em cima de um tronco caído, vendo formigas subindo pelos meus pés descalços e “botucas” de um tamanho assustador, além de mosquitos de todos os tipos com seus zumbidos facilmente aproveitáveis em qualquer filme de terror. E era o horário deles, fim de tarde. Arranquei um arbusto e fiquei me abanando intermitentemente, como se estivesse me autoflagelando, ora à direita ora à esquerda, nas costas, nos pés e pernas. E o Juscelino, animado e mais protegido, andou mais alguns metros à frente quando também foi obrigado a desistir.

Com dificuldade fiz a manobra com a caminhonete na trilha estreita, sendo obrigado a entrar na mata com a caçamba para poder fazer a volta. Ao passar pela casa que antes estava fechada, deparamos com dois homens em frente a ela. Um jovem, Leandro, olhar desconfiado mas que se mostrou afável logo depois, e um senhor que aparentava uns sessenta anos, muito magro, cigarro de palha nos lábios, barba grisalha, olhos que começaram a divagar enquanto o Juscelino tentava explicar o projeto mostrando o GPS e os mapas. Seu João. Aliás, Santo João. Aceitou imediatamente ser o nosso “mateiro” no dia seguinte.

Meu animo retornou por termos chegado tão próximos, e ainda era sexta feira. Cheguei ao hotel às 21 horas, após termos-nos perdido na volta, pois a chuva e a noite nos confundiram. Fui jantar com minha família no Clube Copel, anexo ao Hotel. Ao ver as fotografias, incluindo a da cobra coral, minha esposa concordou não ser uma empreitada para crianças da idade das nossas. Como havia várias programações para elas, inclusive uma visita ao interior da usina no dia seguinte, não foi muito difícil aceitarem a exclusão.

Ali encontrei novamente o Juscelino e sua simpática filha Bianca, de 9 anos, e o Chico Seibel, secretário de obras do Município de Reserva do Iguaçu. Entre caipirinhas e cervejas, claro que o Chico aderiu, vendo uma oportunidade de divulgar o Município. Combinamos partir às nove horas do dia seguinte.

Pela manhã, na hora acertada, fomos encontrar o Chico no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, à beira da estrada que liga Reserva do Iguaçu à Pinhão. Capela simples em homenagem à Santa, várias construções pequenas, local de devotos que lá vão pagar suas promessas e reunirem-se em torno da mesma fé. Chico e Juscelino prontamente contaram a história do local. Um senhor português estava sendo arrastado pela correnteza do rio ali próximo, prestes a cair na fatal cachoeira logo adiante, quando invocou o nome de Nossa Senhora Aparecida e foi salvo. Em agradecimento construiu a capela no local, que hoje recebe os romeiros.

Com a experiência do dia anterior e do Chico chegamos à casa do seu João rapidamente. Lá estava ele nos esperando em frente, ao lado do mesmo cachorro que mal levantava a cabeça para latir. Com facão e foice. Já percebi que ele sabia o que nos esperava. Deixamos a camionete um pouco antes do local anterior para facilitar a manobra, e lá fomos nós, com pressa.

Quieto e andando firme na frente, uns duzentos metros antes do programado seu João apontou para o mato, próximo a um córrego, e disse ser melhor começar por ali, para evitar “muito peral”. O meu hein? já foi seguido de pronta explicação: paredes de pedra encontradas no morro em sentido ao rio, de dois a cinco metros de altura, lisas e cobertas por vegetação rasteira, que se intercalam com o terreno inclinado. Acredito que o termo derive de pedral.

Tudo bem, lá fomos nós mata adentro. Seu João na frente brandindo o facão com maestria abrindo caminho. A mata foi ficando cada vez mais fechada, a inclinação do terreno era tal que tínhamos de prosseguir em zigue zague. O sinal do GPS foi embora graças à densidade da mata e nuvens de chuva que se formavam. Não procurávamos mais o ponto, e sim brechas no alto para apontar o GPS e nos localizarmos. Passaram-se duas horas, transpomos vários perais, levamos alguns tombos pelo terreno estar úmido e ser muito inclinado, e começamos a perder a atenção, e como conseqüência, a prudência. Cheguei a me afastar do grupo por vários minutos, pois cada um foi seguindo o caminho que lhe parecia mais fácil. Gritávamos para saber se a distância não era exagerada e nos manter próximos, mas estava difícil manter o contato visual.

A sede estava apertando, bilhões de mosquitos já se haviam banqueteado com nosso sangue, e parecia que girávamos em torno do ponto. Uma arvore grossa caída projetando-se para frente de um peral desafiou-me a andar uns cinco metros sobre ela, vendo a altura aumentar. Mas lá quase na ponta havia uma clareira no topo das arvores que me permitiu obter um sinal que mostrou estarmos a menos de sessenta metros da confluência. Já bastava, mas eu queria zerar o GPS aos segundos.

Gritei animado, e logo o grupo se aproximou. Marquei bem a direção indicada e fui, torcendo para encontrar outra clareira adiante. Não queríamos, e seria muito trabalhoso, ficar derrubando arvores para isto. Fiz uma pedra rolar para ter idéia da inclinação adiante. Em meio a tanto desconforto comecei a ficar apressado e desatento, mas autoconfiante por ter encontrado um possível trajeto ao ponto.

Para fugir um pouco dos espinhos e encurtar caminho, fui andando sobre mais um peral, muito próximo à borda, mão esquerda agarrada em uma pequena arvore que me pareceu firme. No passo seguinte o peral lascou e como em uma armadilha fui projetado para baixo com a não tão firme arvorezinha na mão, caindo horizontalmente sobre uma pedra, caprichosamente entre o fim da coluna e as coxas. O Chico e o Juscelino pareciam descer pelo lado do peral como se estivessem de tobogã, tão rapidamente chegaram. “Não se mexa”, gritavam, a voz embargada e o nervosismo demonstravam estarem apavorados.

A dor forte da pancada seca foi seguida por um amortecimento assustador nas minhas pernas, braços, ombros. A sensação de enjôo, “mosquitos” lentos e silenciosos, a sensação de estar ficando leve, a imagem daquela enorme parede vertical de pedra a poucos centímetros do meu rosto me fizeram ver que não havia como um esqueleto de 57 anos não ter sofrido algum dano importante. Tentando resistir à sensação de desmaio, comecei a perguntar pelos meus óculos, me beliscar, mexer os dedos dos pés enquanto os dois discutiam entre me arrastar para cima, impossível, chamar ajuda, difícil, e rezar, o mais sensato.

Seu João, que chegou devagarzinho, calmo, sentou no pé como numa roda de chimarrão, esticou o braço e me entregou os óculos. Aquele gesto simples e seguro me acalmou. Raciocinei melhor, vi que o trauma maior foi na bacia e não na coluna, eu estava mexendo bem os braços e pernas, e que a tetraplegia ficou só no diagnóstico diferencial. Apesar do peso das minhas botas consegui levantar as pernas várias vezes e encolhê-las, flexionando-as sobre o abdômen, para desespero dos dois companheiros. Pedi que me ajudassem a sentar, e quando preveni o Chico para sair da minha frente se não eu ia vomitar nele, todos relaxamos. Após uns vinte minutos de espera, só a dor e o enjôo continuavam. Seu João se manifestou: se o senhor agüentar mais um pouco vamos chegar na trilha dos bois.

Resolvi confiar e continuar. Estávamos muito próximos. Como se toda a desgraça possível já tivesse acontecido, após mais uns vinte minutos de descida com fisgadas no lombo a cada passo, finalmente encontramos uma pequena clareira com bom sinal de satélites. E a distância era de metros. Esquecemos meu sofrimento e o frenesi começou. W52 e S26 quase zerados, faltando apenas os segundos. Centímetros acima, à direita à esquerda, o famigerado aviso de sinal fraco, não havia um ponto exato e constante. Precisávamos de um sinal mais forte. Na direção do rio havia uma inocente bragatinga, ainda jovem mas com uns dez metros de altura, situada abaixo do provável ponto, bem na direção do rio. Sem ela teríamos uma visão clara do céu e conseqüentemente um sinal mais forte. Hesitante, torcendo para terminar logo a caçada, a dor constantemente me lembrando do “mico”, decidi pedir ao seu João para abatê-la. Alguém tinha de ser sacrificado. Meia dúzia de golpes firmes de foice puseram-na abaixo. A luz clareou imediatamente nosso local, caprichosamente marcado por uma arvore caída.

Todos estávamos trêmulos, o que dificultou a fotografia do GPS zerado. No chão, apesar do sacrifício da bracatinga, perdia-se o sinal. Foi na mão mesmo. S26.000.000 W52.000.000. Após mais de três horas de caçada. Era 13:27 do dia 18 de novembro de 2006. Providenciamos um marco, segmento da sacrificada, e para dar a idéia das direções cardinais fincamos o facão do seu João no topo e seu chapéu . Tiramos as fotografias (the proof). Missão cumprida.

Agora o retorno. Subir de volta todo o morro nem pensar. Seu João garantiu que logo encontraríamos a trilha de boi (caminho que o gado toma para procurar água), o que facilitaria a descida. E adiante encontraríamos uma estrada que embora muito mais longa contornaria o penhasco e nos levaria de volta. Assim o fizemos. Logo abaixo, de fato encontramos a trilha, e pela primeira vez pudemos descer andando em chão batido. Começamos a ouvir o barulho de uma queda d’água à direita, e foi difícil seu João nos impedir de sair da trilha para matar a sede. Só ele sabia dos riscos que o rio apresentava naquele trecho. Eram os perais no caminho do rio, provocando cachoeiras lindas de água pura mas com margens de traiçoeiras pedras soltas e lisas. Mais um pouco e encontramos o rio e o terreno passou a ficar quase plano, a mata menos densa e inexplicavelmente demos de cara com um barracão, de mais ou menos 3/3 metros, sem ninguém por perto. Seu João explicou que era usado como ponto de apoio de alguns pescadores, mas havia instrumentos agrícolas velhos lá dentro. O pior parecia ter passado. Mais alguns metros e havia uma estrada que terminava no rio.

Após bebermos até nos fartarmos iniciamos a caminhada, e a dor no quadril a cada passo me fez aceitar a proposta de esperar por ali, enquanto o Chico e seu João fossem buscar a caminhonete. Ledo engano. Parado parecia que a dor aumentava, e após uns quinze minutos resolvi seguir caminhando, mesmo lentamente, ao lado do Juscelino que tentava me animar. Subida interminável. Passamos por outro riacho, a estrada era coberta de pedras e vegetação, o que denotava não ter sido trafegada por veículos normais há muito tempo.

A chuva que há horas ameaçava começou, e forte. Bem vinda, agradeci. Continuamos subindo e começamos a ver o outro lado do morro, por onde tínhamos descido, e não acreditávamos ter percorrido tudo aquilo dentro de uma mata fechada. A visão era linda, com seu verde forte pontilhado aqui e ali por arvores amarelas e vermelhas, lilases, Aleluias de vários tipos. Tentamos identificar onde ficava a confluência, percorrendo com a vista o trajeto, e fotografamos sem muita certeza. Revendo a fotografia do satélite acredito que tenha sido de uns 1600 metros. Emoldurando a confluência, o calmo e imponente Rio Iguaçu e seu afluente, chamado pelos pescadores de Rio Butiá.

Estimamos que a caminhada até a casa do seu João seria de uns cinco km. Já deveriam ter chegado lá e voltado. Começamos a considerar outro contratempo. Que não fosse um acidente, muito provável naquela estrada extremamente inclinada e lisa. Avistamos um cavaleiro no alto do morro. Era Seu João, de camisa trocada e outro chapéu. Desceu de uma égua tordilha acanhada e pequena, e desferiu. “O Chico achou arriscado vir de carro nessa estrada, e disse para eu trazer o cavalo para o senhor”. Meio desorientado, perguntei ao seu João como era o nome dela. Hesitou um pouco, e disse: Tordilha. Vi que a coitada não tinha nome. Mas como dizer que não vou conseguir andar um metro nessa égua com a dor que estou sentindo depois de toda aquela boa vontade? Tive de tentar, afinal não poderia ser pior. Encostamos a tordilha no barranco e com muito custo conseguiram me colocar sobre ela. Surpresa. Aquela era uma posição maravilhosa, embora ainda dolorido, melhorou bastante. Fui cavalgando lentamente, talvez tanto quanto se estivesse a pé, mas com muito menos dor. Mesmo que quisesse um galope não haveria condições de convencer a tordilha. Logo chegamos à casa de seu João. Cadê o Chico ?

Já preocupados, seguimos a trilha até onde estava a caminhonete. Mais mil metros de cavalgada. Encontramos o Chico atordoado, tentando fazer o motor pegar. Senti um arrepio, deixamos as luzes acesas e tchau bateria. Sem celular, telefone fixo, luz elétrica, vizinhos, estávamos no mato com inveja de quem está só sem cachorro. Anoitecendo. A fome era tanta que as botucas começaram a ficar apetitosas. Mais uma vez o Santo seu João se manifestou. “Vou buscar uma bateria de trator na fazenda dos gringos, e volto em uma hora”. O bom humor voltou. Em 55 minutos lá estava seu João com uma bateria enorme no lombo da pobre tordilha e o dono da bateria, com cara de gozador, ao lado. Juscelino que entre mil habilidades era também mecânico não teve dificuldades em fazer o carro pegar.

Mil agradecimentos, boa gorjeta e voltamos já com a noite escura, mas ainda paramos no santuário de N.S. Aparecida para agradecer por estarmos meio sãos e salvos. Valeu a pena. O Paraná está completo.

English

18-Nov-2006 -- I learned about the project by chance on Google Earth. Spirit of adventure, promotion of visited countries, search for new knowledge and lack of political and commercial interests make a wining combination for the success of the project.

On checking the visits of the Parana state I learned that only one of twenty points had not been visited. The region is mostly agricultural with great areas of soy and corn fields, amongst other crops; the possibility of the confluence being in a place of easy access was great. As in fact the majority of the reached points are. Somehow this has not been visited.

My curiosity started.
‘Traveling’ on Google Earth I learned that this confluence was on the “Reservado Iguaçu” municipality where the “Governador Ney Amintas de Barros Braga” power plant, was built. This area is also known as “Alagados do Iguaçu”, something like the ‘Iguazu Flooding’. The confluence is at some 1200 m to the East of the Iguazu River at a point where there is sport fishing on small boats with no risks.

Unfortunately the satellite image showed a heavy cloud on top of the area and the best definition was obtained at 9 km from Earth, this made it difficult to identify roads or access to the point. On the other side of the river the image was better and showed great areas of farm land and some roads. All indicated that it would be the same on the side of the river where the confluence is found.

My curiosity grew.
Reading about other visits I found a wonderful example of the necessary and common processes for success in the life of any person. A clear objective to reach, planning, study of related themes, technical training, meticulous survey of the battle field. With my two kids, Gabriel 6 and Lara 8 and my wife Jocemara (Jo), all used to challenges, camping, admiring flora and fauna our participation in this project is one more reinforcement to our formation of responsibility with the environment and of gaining a deeper knowledge of the biodiversity of this region.

Curiosity and desire to participate combine.
The proximity of a holiday in October was the opportunity to satiate my curiosity. I presented the project to my family and it quickly became a promise waiting to be met. We decided to spend the holiday at the city of Guarapuava, some 90 km from the confluence. We left Curitiba on October 12 and on the next day we made our first analysis of the area. After eating dust for more then three hours on dirt roads with no GPS and poor maps we tried an approach on the opposite side of the river. The discomfort that small children have after being inside a vehicle for extended periods made us stop our effort and spend the rest of the day taking a bath on the river. I started planning another approach, now with a GPS and advice from local people. I started to feel that this was not going to be easy.

Back in Curitiba I mentioned the project to some friend trying to make the team bigger and share the growing pleasure I was feeling from this challenge. Every one of the many that became interested had problems this time of the year. I decided to make another survey trip with my family. More hours of study on Google Earth, imagining trajectories, planning equipment and contacts. Also buying other maps, a GPS and a new digital camera. I came to the realization that it was fundamental to find out the owner, establish contact, ask for information and obtaining his permit to access.

This municipality was established in 1997 with only 6,600 inhabitants, half of them in rural areas. Its extension is 800 square km and is at 10 km from the power plant. I needed to find out more about accommodation in the area. My neighbor and friend Sergio Kraemer, and engineer for Copel, quickly arranged a reservation in the only hotel in the area, managed by the power plant and inside the employees town. We went there on November 17, a Friday.

The Segredo hotel had a familiar flair, we arrived at noon. After a bath and lunch I went to the city, at 8 km, in search of the property register office. I found it easily with the help of an 8 year old boy that works on the yards of the power plant employees who asked me for a ride. Despite the satellite images and several maps I was unable to get what I needed. So I called a friend that was deep in a ‘chat’ session.

Juscelino de Castro is responsible for Social Responsibility at Copel and teaches Portuguese at municipal schools; he became fascinated by the project and provided me the needed information; and insisting that we went after the confluence immediately. He verified some details with other ‘local experts’ as we left; he with uniform and tennis, me with shorts and sandals.

It was 15h00 and after almost 350 km from Curitiba to here I was not all that exited. But it was impossible to resist the enthusiasm of Juscelino. We moved on, an irregular and hellish road, cutting through crops, taking detours where no markings existed, only Juscelino knowledge and the GPS. After innumerable closed and open gates we reached a property with a ‘no trespassing’ sign, at 1600 m from the confluence; at 50 m a house with a hen-house and a barking dog. Nobody responded to us so we decided to proceed.

The courageous Mitsubishi L200 moved on through a narrowing track as I got concerned about scratching the paint. At some point we switched to low traction to avoid any slippage until we where stopped by a stream at 800 m of our goal. Here we continued by foot. We where so animated that a coral snake was cause of joy and we took photos of it.

With my sandals and shorts my hope of accomplishing the visit diminished. We walked about 600 m when the GPS indicated we needed to move right into closed bushes, I could only do 20 m before I froze on top of a dead stump seeing ants walking up my ankles and swarms of mosquitoes flying around; it was their hour the end of the afternoon. I grabbed a branch and tried to keep them away from me. Juscelino with a little more ‘cover’ made a few more meters before he too had to withdraw.

With difficulties I made a ‘U’ turn on the narrow road. As we passed by the previously empty house we saw two people, Leandro quite young and Joao, who seemed to be around 60 years old and who looked bored when Juscelino explained the project and showed the maps and GPS. Joao eventually became our savior.

My spirits improved since we came quite close and it was only Friday. I arrived at the hotel at 21h00 after loosing my way due to the rain and the night. My family and I went for dinner, when I showed them the photos, including the one of the snake my wife agreed that this enterprise was not suitable to kids of the age of ours. Since they had other activities programmed, including a visit to the power plant it was not hard for them to accept the situation.

Juscelino also joined us with his daughter Bianca and Chico Seibel who works for the municipal government and saw the confluence as an opportunity to promote it. We agreed on the time to start the next day.

On Saturday morning, at the agreed upon time, we picked Chico up at the church of Nuestra Señora Aparecida With our experience from the previous day we arrived at Joao’s house in short time. He was waiting for us. Moving firmly Joao made a turn some 200 m before our maximum progress of the previous day. He said this would help us avoid some walls of stone on our way to the river.

All was going well. Joao at the front opening the path with his masterful use of the machete. The vegetations was very dense and the slope made us move in zig-zag. About two hours passed as we avoided perils and had a few falls. We were yelling to one another to assure we where at reasonable distance since visible contact was hard.

Our thirst was growing as mosquitoes enjoyed a banquet with our blood and we seemed to be moving in circles. A fallen tree on top of a stone allowed me to walk above the foliage and get a GPS reading of 60 m to the confluence. This was enough for the project but I wanted zeros.

I cried with gusto as the group joined me. I marked a reference in the direction we needed to go. We did not want to chop trees unnecessarily. I rolled a stone to get an idea of the slope. In the middle of all the discomfort I was confident since we had a bearing to our goal.

On an attempt to avoid thorns I tried to walk from stone to stone. At one point my footing was not firm and I fell horizontally on a rock. Chico and Juscelino got to me so fast it seemed as if they where riding a sled. They yelled ‘do not move’ expressing fear and nervousness. The strong pain of the fall was followed by numbness on legs, arms and shoulders. A sensation of nausea, the mosquitoes slow and silent, some lightness and the enormous stone wall next to me made me think that there was no way that a 57 year old skeleton could come out with no damage. Trying to resist fainting I asked for my glasses, to pinch myself and to move my fingers; all this while my companions debated how to drag me to the top or how to call for help, both difficult, or to pray, the most sensible thing to do.

It was Joao who arrived serenely, sat by me and handed my glasses. It was this gesture that brought calm back t me, I reacted better and noticed that the main damage was not on the column and I could move my arms and legs. Despite the weight of my boots I was able to rise and lower my legs over my chest, to the despair of my two partners. I asked them to help me sit and when I warned Chico to stay clear of me because I could vomit on him we all had a laugh. After a wait of 20 minutes the pain and nausea where still there. At that point Joao said that we where close to the ox trail.

We where so close I decided to move on as if all bad things that could happen where behind us. After 20 more minutes we found a clear with good signal, the distance was just meters. We forgot the suffering and the excitement started. W53S26 almost zeroed in we moved left and right without obtaining a solid reading. We needed a stronger signal; in the direction of the river was a young “bragatinga” (native tree of the region) where the confluence could be located. Without it we would have a clear view of the sky and a stronger signal. Hesitating, thinking about the accomplishment, with the pain still with me, I asked Joao to chop the tree. Half a dozen solid blows did the job; the light immediately cleared the site and, capriciously, a fallen tree marked the point.

We where all shaking which made taking the GPS photo difficult; if placed on the ground it lost signal so the photo is with the GPS in my hand. After more than three hours of search. It was 13h27 of November 18, 2006. We placed Joao machete and hat to give idea of the directions. We took the photos. Mission accomplished.

Now the way back. No way we would go through the same track. Joao told us that we would find the ox trail and then a dirt road that, even longer, would make our way back much easier. Once on the ox trail we heard water and as we ran to quench our thirst Joao warned us of the dangers of loose and / or slippery stones. The worst seemed to be over, a few meter ahead we found a road that ended on the river.

After drinking we started to walk, the pain at each step made me accept the proposal to wait while Chico y Joao went for our vehicle. But in rest the pain was even stronger, after 15 minutes I decided to continue walking, quite slower, with Juscelino trying to cheer me up. Endless climbs. We passed another stream, the trail was covered with stones and grass and indication that no vehicles had passed by it in a while.

The rain that until now was just a threat started, I welcomed it. We continued the climb until we could see the other side of the hill; we saw the way down and could not believe that we had crossed through all those bushes and closed vegetation. The view was pretty with a variety of colors from trees and flowers. We tried to identify the confluence, tracking back our way, and took some photos without much certainty. After looking at the satellite image it seems that we where at 1600 m. Framing the confluence we had the calm and impressive Iguazu River and it tributary the Butia River.

We guessed that the walk to Joao’s house was about 5 km. They should have arrived and be back, so we started to think about another mishap, hoping it was not a vehicle accident in such a difficult terrain. On the distance we saw a rider on a horse; it was Joao with a new shirt and hat. He dismounted and said that Chico considered very dangerous to enter this roads on the vehicle and sent Joao for us. I was not sure that I could ride a horse with my pain but had to give it a try. We lined the horse on a lower part to ease my mounting, to my surprise the saddle position made the pain much more tolerable. I rode very slow, almost as if I where walking but with less pain. We finally arrived at Joao’s house. But, where was Chico?

Somewhat worried we followed the road and found Chico trying to start the vehicle. We left the light on and the battery had run dry. It was getting dark and we had no telephone or electricity. And we where so hungry. Joao became the savior one more time, he said: “I will go get a battery from the neighbors’ tractor, I will be back I half hour”. In 55 minutes he was back with the battery and its owner. Juscelino had no problem in starting the engine.

As we came back at night we stopped by the Nuestra Señora Aparecida church to thank for being safe and sound. It was worth it … the Parana state is complete.


 All pictures
#1: A confluência
#2: Para o norte
#3: Para o leste
#4: Para o oeste
#5: Para o sul
#6: A prova
#7: O time
#8: O time 2
#9: Espanta crianças
#10: O Rio Iguaçu
#11: A cachoeira do Santuário
#12: Vista ao Iguaçu
ALL: All pictures on one page (broadband access recommended)